quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Boca do lixo

O que pensam as pessoas neste trem lotado
Fingindo ler livros enquanto as páginas voam vazias?
E o vendedor ambulante pensa o que a cada olhar de desprezo?
O que penso eu no meio desta multidão olhando os trilhos vazios
Que ficam para trás como se fossem minha própria sorte?
E Qual o destino de toda essa gente? Auschwitz, Goya
Ou a próxima estação que parece não chegar nunca.
Não que eu me importe porque sou tão egoísta quanto todos aqui.
Quantas vezes pensei suicídio? Trinta e sete ou mais - até perdi a conta
Sempre achei a ponte baixa demais ou a corda frouxa demais.
E todos os distúrbios de personalidades não passaram de uma invenção
Mesquinha e sem sentido, já que o resultado era tudo aquilo que eu mais temia.
Minha sombra dançava sozinha na chuva gelada e como no poema
Cerveja era apenas o que restava.
Não adiantava tomar todas as cervejas do mundo, nem todo uísque ou conhaque
Nem fumar toda a plantação de maconha existente.
Fugir da realidade só a tornava pior quando eu voltava pra ela.
E eu que achava que podia controlar todos os tipos de situações
Não conseguia nem ter o controle de minhas lágrimas.

E o trem parou e seu barulho monótono também
Era a última parada ou o aviso de morte? não tínhamos sorte
E todos desceram com dores em todos os lugares do corpo.
São Paulo continuava do mesmo jeito
Cinzenta, barulhenta, um bilhão de pessoas apressadas...
Ninguém me conhecia nas ruas nem nos bares nem em qualquer canto.
Eu era um fantasma e me sentia vivo ao lado de outros fantasmas
Espalhados pelos cantos sórdidos da boca do lixo.

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