segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Ela folheia as flores do mal enquanto fuma um baseado. Diz que a vida pode ser um conto de fadas e começa a dançar. Mais uma tragada. Mais um poema. O coração dispara. Tudo para ela está fora dos sentidos.
“dá vontade de fazer tudo ao mesmo tempo. fugir, se esconder, andar sem roupa no meio de uma multidão de pessoas cegas”.
“pode fazer isso”
“não posso. não estou livre”.
“pode ser livre aqui”
“quero ir além. aqui é só um quarto”.
“pode ser o que quiser aqui”.
“não posso ser nada aqui”
“ o que aconteceu com o conto de fadas?”
“ o perdi nesta imundice”
“ache-o”
“não existe nada aqui dentro. não sou capaz de criar nada aqui. não existo aqui. nem você. e a porta está trancada”
“pode pular a janela”
“não tenho asas”
“não é muito alto”

O diálogo havia nos esgotado mentalmente. Qualquer barulho, por mais baixo que fosse, parecia uma explosão. Era como se o grito tivesse invadido o quarto.
Fui rastejando até encontrar o corpo dela na escuridão. Toquei seus pés frios. Ela gemeu. Me sentia um pouco desconfortável. Minha cabeça estava numa grande roda gigante.
“apresse-se, me fode”
“tudo está fora do lugar. não consigo te encontrar".
“já está em cima de mim”
“hum...posso sentir seu osso”
“você entende o que tá acontecendo?”
“não”
“ é o conto de fadas”
“não creio”
“é sim. é mágico”
“queria ter este poder”
“que poder”?
‘ de não enxergar a realidade”
‘ feche os olhos e me imagine. não sou a realidade”
“ eu sei. por isso me assusta tanto”
“ te assusto?”
“ sim”
“por que?”
“tenho medo de amá-la”
“isso aqui é um conto de fadas não existe amor. tudo aqui é sincero”.
A tarde passou rapidamente e pude ver o sol se esconder. Tudo ficou alaranjado no céu.

“agora entende o que tava falando?”
“acho que não. enxergamos as coisas de maneiras diferentes. não só enxergamos como também sentimos de maneira diferente.
“sei disso. estamos no mesmo ambiente, mas em mundos opostos".
“exatamente”
“mas acredito que nos momentos em que estamos juntos, em alguns instantes, esses mundos se chocam e podemos sentir a mesma coisa”. nossa historia não tem começo, meio e fim. estaremos sempre juntos mesmo estando em mundos diferentes. há uma forte atração que vem sei lá de onde que nos unirá sempre.
“pode ser que tenha razão. mas isso seria uma explicação. gosto da dúvida”.
“ eu sei. seu mundo é o da incerteza”
“seu mundo é lisérgico demais”
“tudo isso é uma grande loucura. como fazer sexo num sofá abandonado”
“acho que a maconha e Baudelaire mexeram com sua cabeça”

Ela sorriu. Nossos mundos voltavam a se distanciar. 

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Minha mente está vazia como um poço no meio do deserto

Às vezes me imagino num hospital
80 anos - sofrendo algum tipo de câncer maligno.
Sozinho no quarto, ouço passos no corredor
Enfermeiras e médicos que caminham tranquilamente
Até os doentes que não se cansam de gemer.

E pode ser que alguém venha me visitar
Sentindo pena ou nojo,
Tanto faz.

Em nenhum momento penso no que vivi até ali,
Nem me lembro de nenhum acontecimento,
Sequer me vem à memória alguma pessoa que tenha estado comigo,
Seja por um segundo ou por anos.

Minha mente está vazia como um poço no meio do deserto
E tenho tempo para sorrir.


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A grande festa

Eu era um cara de 27 anos escrevendo poemas 1h30 da madrugada de sábado.
O que havia de errado comigo?
Era difícil saber e também não queria descobrir.

Lá fora, a festa já havia começado.
Os caras berravam, dançavam e bebiam até vomitar.
As meninas com caralhos enfiados em todos os buracos
Se divertiam pra valer.

Com o poema ainda no primeiro verso esquecido em algum canto
E a cerveja quente e sem gosto,
Eu também me divertia pra valer.

E os caras gritavam pra mim:
“Ei cara vem pra festa que tá perdendo
A maior putaria que vi na vida”
Minha putaria estava mais excitante
Com tantos verbos pra expressar porra nenhuma.

A música não me agradava era esse o motivo.
E por que tanta gritaria,
Vão estourar a garganta desse jeito.
Preciso de silêncio que parece que o poema chega às mãos paralíticas
E tudo de repente está escrito
Com pontos, vírgulas, substantivos e adjetivos em excesso.

O excesso era a base de tudo.
Os caras estavam chapados demais,
As meninas loucas demais,
E eu mais louco ainda
Começando um segundo poema.

Às 3h da madrugada tudo perdia a força.
Meu segundo poema ficou inacabado como quase tudo que eu fazia,
O som da festa ainda bem parou,
Os bêbados dormiam em cima de qualquer coisa,
Nem os cachorros latiam mais.
Todo mundo fazia parte da mesma festa de merda
Todo mundo ia dormir, depois acordar,
Ir ao banheiro, escovar os dentes, sentar na beira da cama
E pensar que nada daquilo fazia sentido.








quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Boca do lixo

O que pensam as pessoas neste trem lotado
Fingindo ler livros enquanto as páginas voam vazias?
E o vendedor ambulante pensa o que a cada olhar de desprezo?
O que penso eu no meio desta multidão olhando os trilhos vazios
Que ficam para trás como se fossem minha própria sorte?
E Qual o destino de toda essa gente? Auschwitz, Goya
Ou a próxima estação que parece não chegar nunca.
Não que eu me importe porque sou tão egoísta quanto todos aqui.
Quantas vezes pensei suicídio? Trinta e sete ou mais - até perdi a conta
Sempre achei a ponte baixa demais ou a corda frouxa demais.
E todos os distúrbios de personalidades não passaram de uma invenção
Mesquinha e sem sentido, já que o resultado era tudo aquilo que eu mais temia.
Minha sombra dançava sozinha na chuva gelada e como no poema
Cerveja era apenas o que restava.
Não adiantava tomar todas as cervejas do mundo, nem todo uísque ou conhaque
Nem fumar toda a plantação de maconha existente.
Fugir da realidade só a tornava pior quando eu voltava pra ela.
E eu que achava que podia controlar todos os tipos de situações
Não conseguia nem ter o controle de minhas lágrimas.

E o trem parou e seu barulho monótono também
Era a última parada ou o aviso de morte? não tínhamos sorte
E todos desceram com dores em todos os lugares do corpo.
São Paulo continuava do mesmo jeito
Cinzenta, barulhenta, um bilhão de pessoas apressadas...
Ninguém me conhecia nas ruas nem nos bares nem em qualquer canto.
Eu era um fantasma e me sentia vivo ao lado de outros fantasmas
Espalhados pelos cantos sórdidos da boca do lixo.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Prefiro um cômodo pequeno e sufocante para.
Observar o mundo pela janela como se não fizesse parte dele.
Fosse apenas um expectador atento a todos os movimentos.
E pareço estar à beira da loucura. Com medo de vozes e passos.
Medo. Sim, o medo. O medo que maltrata de uma forma cruel.
Cutucando as feridas até formar um pus amarelo e podre.
Eu disse à beira da loucura quando na verdade devia ter dito à beira do desespero.
A loucura não faz parte desse mundo.
É encantadora demais para estar ao meu alcance.
Confesso que queria estar louco. Livre de todos os julgamentos, do certo e do errado. Queria que minhas palavras fossem apenas palavras.
Sons, simplesmente. Sem significados.
Porque tudo que eu digo sempre vem acompanhado de uma rejeição ou de um porquê. Estou cansado dos porquês.
E, sobretudo cansado de dar explicações para nada quando o nada me parece explicação para tudo.
As paredes nunca falaram tanto nestes últimos dias.
Pena não conseguir compreender o que pensam.
Todos esses anos aí paradas, aguentando todo tipo de gente.
Sendo cúmplices de crimes e traições. 
Sei que elas me observam de um jeito diferente.
Às vezes penso se ficar encostado em uma parede por mais de um dia poderei me tornar parte de seu corpo frio.
Ou até mesmo uma de suas rachaduras. Ou o mofo.

Um baseado, duas ou três cervejas. Tenho medo de ficar sóbrio e olhar no espelho.
 O que me tornei? Uma sombra. Pior que isso.
O que podia ser pior que uma sombra que se perde na escuridão?  
Um homem que é uma sombra e vive na escuridão.
Isso não faz sentido. O que faz sentido?
Um rato morto faz sentido. Cacos de vidro em cima da pia da cozinha fazem sentido.
As ruas desertas de madrugada fazem sentido. Um homem no meio de um círculo formado por cinco mil livros tenta encontrar um sentido.
Minha cabeça dói. Sempre do lado esquerdo.


Parece que meus pensamentos surgem todos de uma parte do cérebro cujo funcionamento depende de algum tipo de paranoia.
E não é fácil fechar esta janela. Não que eu me esforce para fechá-la.
Há um prazer doentio em toda essa estranheza.
Uma sensação de estar percorrendo estradas sem destinos.
Como se tudo fosse uma reta infinita com labirintos pelos lados que me forçam a me perder. 
E tudo isso acontece sem que eu perceba o tempo passar.
O dia amanhece e não ouvi nenhum pássaro cantar.
A tarde chega sem eu ter almoçado. Noite. Madrugada.
Continuo sentado. Olhando o nada.
Preservando o silêncio como se fosse uma pedra preciosa.
Não leio mais os jornais. O que acontece aqui dentro não é diferente do que acontece no resto do mundo.
Todas as minhas ações são facilmente encontradas em qualquer esquina.
Corpos enferrujados e mentes com engrenagens que não se encaixam.
O ser e o nada num duelo até a morte.
Uma luta esquizofrênica sem sangue derramado.
Porque a tragédia há muito saiu dos palcos para perambular
Anônima pelas cidades cheias de tédio.
Os atores agora vivem como um bando de baratas nojentas
A subir pelas paredes comendo a própria merda.
Merda que agora é servida no café da manhã como prato principal
E não é só o cheiro da merda que se acumula em todas as esquinas,
O cheiro da covardia, da inutilidade, da agonia, da angústia, do egoísmo
Da impossibilidade, de tudo aquilo que foi morto por esperanças inúteis
Também lá está. Tudo à mostra, gratuitamente.




O cheiro podre do nada

O cheiro podre do nada
São as moscas nauseabundas
Que rodeiam a merda do cachorro morto.

O cheiro podre do nada
É o podre cheiro do amanhã.

O cheiro podre do nada
É o cheiro do homem e toda sua ignorância.

O cheiro podre do nada
É o nada que não cheira.

O cheiro podre do nada
São ratos mortos em cima da cama,
Cujos lençóis foram limpos ontem à noite.

O cheiro podre do nada será sempre
O princípio da existência.


Homem-sombra

homem -
produto da miséria
homem-cão
homem-solidão
homem-bactéria
homem que morre de fome
que morre no escarro
que morre sem nome
homem-solitário
homem-sombrio
homem-sombra
homem-operário
às cinco da manhã
homem-frio
homem-vazio
homem-esperança
homem-deus
homem-nada
homem-solitário
homem-sombrio
homem-sombra









Suicídio


correu e correu ainda mais quando
viu que as pedras estavam próximas.
com dificuldade, subiu o mais alto que pode
e se atirou de cabeça. 
as risadas tornaram-se gritos sufocantes de pessoas desesperadas.
a cor do mar tornou-se cinza-escuro.
as ondas engoliram os navios.
sangue muito sangue.

Azia

há um quarto sujo
há cerveja
apenas cerveja
não há vozes
há dores
há azia quase todo o tempo
corroendo o estômago
o fígado, os pulmões...









Sou o pior poeta do mundo



o veneno nunca é forte o bastante...
a solidão é forte o bastante...
a cerveja acabou
não estou bêbado o suficiente
para esquecê-la

os olhos dela são azuis
não, são castanhos
não sei qual é a cor dos olhos dela

sou o pior poeta do mundo

não consigo escrever
um poema
capaz de derrubar dez mil elefantes

o cheiro de esgoto
é mais forte
e mais intenso que
qualquer palavra

o telefone toca

ela não vem

Último gole

            
deitou-se na areia,
nocauteado
como um boxeador aposentado.
descalçou os sapatos,
jogou as meias pretas no mar.

o último gole, ainda no copo,
parecia doce como mel do diabo,
porém, revelou-se demasiado amargo
segundos antes da última gota de sangue
tocar a areia vermelha.

os urubus rodeavam-no -
carne fresca ao pôr-do-sol


Ódio

Aprecio o ódio
Gosto de seu gosto áspero
Do seu toque profundo
Cortando a pele, lentamente.
Odiar aquilo que me agrada
É minha forma de amar -
Causar dor sem dizer adeus.



A boca da prostituta



Há sempre algo mais triste
Que tua cara a envelhecer no espelho

Há sempre uma prostituta com a boca molhada
Esperando tua solidão

Há sempre a ideia absurda de que amanhã ou depois
As coisas irão funcionar (como, de fato, deveriam)
Mas isso é querer demais...


Mais um poema sobre solidão



...vagar por bares à noite, sozinho,
com uma vontade insana de apertar o gatilho
de correr para o fim do mundo com a solução infeliz
de mil garrafas vazias e poemas e mais poemas
de ruas escuras e gente descalça caída nas calçadas
de asfaltos e de pedras soltos na mente alucinada
e a lua que escorrega nas nuvens
 traz um novo jeito de morrer a cada noite de loucura
orgia de desespero ao som de sirenes assustadoras
faz todo o mundo sorrir e suar e correr pelado
agitando carros e flores e varais de roupas sujas
espalhadas pelas camas desarrumadas
de gente que anda pela casa à noite sem um gato
para lhe fazer companhia e chora lágrimas tristes...


Todos os rostos suicidas do mundo


               

São os olhos de Maiakovski
Perdidos na revolução,
Olhando as estrelas.

É o nariz de Jack London
Trêmulo e cansado
Respirando o ar nevoento das fábricas.

É a boca de Sylvia Plath
Amarrada ao pranto
Com gosto de gás de cozinha.

É a barba de Hemingway
Mergulhada em sangue -
Cheiro de pólvora.

É Antonin Artaud
Mastigando a orelha de Van Gogh
Na sala de eletrochoque.








Pai

Meu pai está morrendo sujo e esquecido
Num quarto mais fedido que seu corpo.
Ele bebe pinga estragada no almoço
E no jantar come o que sobra das feridas.

Meu pai não sabe que dia é hoje,
Meu pai não sonha em comer peru no natal.
Meu pai está louco e a existência para ele
É o vazio da garrafa.





quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Solidão


As mesas estão vazias...
os jogadores deixaram o baralho
para que o fosse roído por ratos de banheiro
e se esvaíram como poeira.
a cerveja foi deixada pela metade
mas ainda dá para sentir
o gosto quente de morte.