domingo, 20 de abril de 2014

Menina terror

A menina está parada na esquina, bebendo cachaça e com cara de dor. Fugiu de casa e não levou malas. Na bagagem, apenas a rebeldia e as marcas do corpo. E são muitas.

Então ela desceu do ônibus e notou que estava num lugar totalmente desconhecido. Caminhou alguns metros. Parou. Sorriu. Era exatamente onde queria estar. Sem ninguém conhecido por perto. Podia ser ela mesma ou ser qualquer coisa.

A menina virou prostituta, cheirou cocaína, vomitou na sarjeta e não derramou uma lágrima. 

Recebeu o apelido de menina terror. Caminhava sem medo pela noite e sem se preocupar com o perigo. E pedia sempre que metessem com mais força. Mais força, mais força. Não era o suficiente, nunca.

Dias depois de alguns uns dias, a menina sumiu. Não foi vista nunca mais, isso entre os becos e sarjetas, pode ser que passeasse tranquilamente pelas ruas de Paris, com outro nome, outra pele. Sem aquela sujeira de bueiro. Mas dentro do seu estômago, lá no fundo, ainda restava alguma náusea da menina terror. A menina que parava na esquina com cara de quem ainda é menina.